CENtrO
DE PESQUISA
Histórico do Cordel
Expressão poética essencialmente ligada à transmissão
oral, baseada sobretudo na memória coletiva e na cooperação
simultânea de inúmeras vozes, quando ainda não havia o escrito/a
letra, tal poderia ser uma definição dentre as múltiplas
que existem a respeito da Literatura de Cordel.
O início das atividades relativas à promoção dessa
poesia na Fundação Casa de Rui Barbosa se situa na década
de 60, no Setor de Filologia, a partir da doação da Coleção
do Prof. Manuel Cavalcanti Proença, à qual se juntaram, ao longo
dos anos, folhetos procedentes de outros estudiosos, como Antonio Houaiss, Orígenes
Lessa, Sebastião Nunes Batista, Manuel Diegues Júnior, Carlos
Drummond de Andrade, Odylo Costa Filho e Umberto Peregrino. O acervo da Instituição
perfaz, atualmente, cerca de oito mil folhetos, levando-se em conta duplicatas
e poemas de diversas épocas, alguns com a autoria distribuída
entre vários poetas, como é o caso do acervo de Leandro Gomes
de Barros.
Concomitante a essa doação cabe ressaltar a iniciativa do Prof.
Thiers Martins Moreira, então diretor do Centro de Pesquisas, de encetar
um projeto de publicações intitulado Literatura Popular em Verso,
cujo Catálogo organizado por Cavalcanti Proença e Orígenes
Lessa, em 1961, reunia 1000 (mil) folhetos de autores diversos, alguns obtidos
junto a cantadores e poetas populares em viagem feita ao Norte por Orígenes.
O volume denominado Estudos, publicado em 1973, contou com a colaboração
de diversos especialistas na matéria, destacando-se o próprio
Manuel Diegues, Ariano Suassuna, Bráulio do Nascimento, Dulce Martins
Lamas, Mark J. Curran, Raquel de Queirós e Sebastião Nunes Batista.
A Antologia propriamente dita, datada de 1964, contém os folhetos das
coleções dos três pesquisadores anteriormente citados :
Cavalcanti Proença, Orígenes Lessa e Manuel Diegues Júnior.
Essas três obras representaram (e ainda continuam sendo) a referência
bibliográfica clássica nessa área. O esforço inicial
do Setor de Filologia se consolidou, já na década de 70, em trabalhos
importantes sobre a literatura de cordel visando inicialmente, ao estabelecimento
de um corpus de cem folhetos, um tronco-comum de temáticas, entre as
diversas instituições culturais com acervos importantes, como
a Universidade da Paraíba, a de Pernambuco, Ceará, o Instituto
de Estudos Brasileiros e a própria Casa Rui. Esse intercâmbio de
experiências teve a direção dos Profs. José Aderaldo
Castello, da USP, e Adriano da Gama Kury, responsável pelo Setor de Filologia. Nessa mesma época ocorre a contratação
do pesquisador Sebastião Nunes Batista, filho de Francisco das Chagas
Batista, espécie de “memória viva” do cordel, que
inicia trabalhos de grande valia, sobretudo os referentes às questões
de métrica e dissipação de dúvidas quanto à
autoria dos folhetos.
A gestão de Orígenes Lessa no Setor de Filologia no início
da década de oitenta irá ser marcada por uma linha editorial de
pesquisas e publicações, continuação do projeto
pioneiro de Thiers Martins Moreira, Literatura Popular em Verso, acrescida agora
da designação Nova Série, procurando abarcar assuntos específicos
do universo do cordel, articulando-os a uma abordagem multidisciplinar. Cabe
destaque os seguintes títulos:
1. O ciclo épico dos cangaceiros – Ronald Daus (1982);
2. Inácio da Catingueira e Luís Gama – Orígenes Lessa
(1982);
3. A Poética popular do Nordeste – Sebastião Nunes Batista
(1982);
4. O Cordel e os Desmantelos do Mundo – Orígenes Lessa e Vera Lúcia
de Luna e Silva (1983);
5. A Voz dos Poetas – Orígenes Lessa (1984);
6. O Cordel: testemunha da História do Brasil – Organizado por
Olga de Jesus Santos (1987);
7. O Negro na Literatura de Cordel – Olga de Jesus Santos e Marilena Viana
(1989).
No entanto, essa série de textos seria interrompida com a morte de Orígenes.
O acervo de folhetos foi transferido para a Biblioteca da instituição
e as atividades de pesquisa e publicação foram paralisadas e os
estudos e consultas sobre o Cordel se restringiram a pesquisadores externos.
Após o rigoroso inverno político-cultural oferecido pelos conturbados
anos 90, a linha de pesquisas e publicações voltou a se estruturar
por volta de 1995, sob a gestão de Homero Senna no Centro de Pesquisas.
Quanto à Literatura Popular em Verso, a retomada se daria com o recente
patrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
do Rio de Janeiro (Faperj) que, há cerca de dois anos, concedeu auxílio
institucional à Fundação Casa de Rui Barbosa, com o objetivo
de preservar, inicialmente, os poemas de Leandro Gomes de Barros, considerado
o primeiro a publicar, editar e vender seus versos. O acervo de Leandro que
se encontra em número expressivo nas coleções da Casa Rui,
notadamente na de Sebastião Nunes Batista, inclui tanto os textos raros
publicados no início do século XX, quanto aqueles de edições
posteriores atribuídos a outros autores.
O Projeto de Pesquisa, intitulado Folhetos de Papel: Memória do Cordel,
elaborado pela Profa. Ivone da Silva Ramos Maya, teve a preocupação
não só com a pesquisa literária, ressaltando-se a expansão
dos temas da antiga classificação da Casa Rui, a fim de que os
interessados tenham noção da riqueza semântica desses poemas,
como também com a cronologia desses folhetos. Muitos deles constam nas
bibliografias sem indicação de local ou data e somente com a pista
fornecida pelos diversos locais de residência do poeta no Recife se foi
possível resgatar a época provável de publicação.
Do ponto de vista técnico, o Projeto propôs a digitação
e inserção na Base de Dados dos poemas de Leandro Gomes e de toda
a bibliografia concernente ao assunto, além da digitalização
dos mesmos para posterior aproveitamento nas antologias virtuais que se farão
sobre a obra do poeta. Também foi prevista a restauração
desse acervo, a fim de que se possa preservá-lo da corrosão inevitável
do tempo, pois trata-se de textos escritos em papel manilha, frágeis
por definição, alguns esmaecidos, outros comprometidos para a
leitura, mas que se encarregam de guardar em suas páginas a memória
de uma época e os anseios de um poeta, porta-voz privilegiado de toda
uma comunidade.